
Se tens crianças em casa, provavelmente já pensaste no que aconteceria se faltasse a eletricidade durante várias horas, se fosse necessário sair de casa rapidamente ou se ocorresse um sismo.
Mas há uma questão que nem sempre é fácil: como explicar estas situações aos mais pequenos sem os deixar assustados?
A boa notícia é que a preparação familiar não precisa de envolver conversas difíceis, imagens assustadoras ou cenários extremos. Pode começar com coisas tão simples como mostrar onde está a lanterna, combinar um ponto de encontro ou fazer um pequeno exercício em família.
Neste guia, partilhamos formas práticas de preparar crianças para uma emergência, respeitando a idade, a personalidade e o ritmo de cada uma.
O essencial em 5 pontos
- Fala de preparação como falas de outras regras de segurança do dia a dia.
- Adapta as explicações à idade da criança.
- Ensina pequenos gestos através de atividades simples.
- Cria um plano familiar em que os adultos mantêm a responsabilidade.
- Ouve as dúvidas e os receios, sem os desvalorizar.
1. Fala de segurança, não de catástrofes
As crianças aprendem desde cedo que devem usar o cinto de segurança, olhar antes de atravessar a estrada ou ter cuidado com objetos quentes.
Aprender o que fazer numa emergência pode ser apresentado exatamente da mesma forma: como mais uma competência útil para o dia a dia.
Em vez de começares por explicar tudo o que pode correr mal, concentra-te nas pequenas ações que podem ajudar.
Por exemplo, em vez de dizeres:
“Se houver um terramoto, a nossa casa pode ficar destruída.”
Podes dizer:
“Sabes que às vezes a terra pode tremer? Há alguns gestos que podemos aprender para nos protegermos. Queres que te mostre?”
A segunda abordagem não esconde que existem riscos, mas transforma a conversa numa oportunidade de aprendizagem.
A UNICEF recomenda que os adultos comuniquem com calma, utilizem explicações adequadas à idade e deem espaço às perguntas e emoções das crianças.
O objetivo não é prometer que nunca acontecerá nada de mau. É mostrar que existem formas de nos prepararmos e pessoas a quem podemos pedir ajuda.
2. Adapta a preparação à idade da criança
Uma criança de quatro anos não precisa de receber a mesma informação que um adolescente. E mesmo entre crianças da mesma idade podem existir diferenças importantes.
Estas sugestões são apenas orientações gerais. O mais importante é adaptares a conversa à maturidade e às necessidades de cada criança.
Crianças dos 3 aos 6 anos: aprender através de gestos e brincadeiras
Nestas idades, privilegia instruções curtas, concretas e fáceis de repetir.
Podes começar por:
- mostrar onde guardas a lanterna;
- ensinar a procurar um adulto de confiança quando precisam de ajuda;
- explicar que devem seguir as indicações dos pais, educadores ou outros adultos responsáveis;
- praticar gestos simples de proteção, sem transformar a atividade numa situação assustadora.
Ideia prática: pede à criança que te ajude a encontrar a lanterna em casa e mostra-lhe como funciona. Pode parecer uma atividade muito pequena, mas já permite aprender algo útil.
Crianças dos 7 aos 11 anos: compreender e participar
Nesta fase, muitas crianças já conseguem compreender melhor porque existem regras de segurança e participar em algumas decisões familiares.
Podes envolvê-las em tarefas como:
- ajudar a desenhar um mapa simples de casa;
- identificar as saídas habituais;
- aprender os contactos importantes da família;
- ajudar a organizar artigos leves e seguros do kit de emergência;
- participar num pequeno exercício familiar.
É também uma boa idade para fazer perguntas como: “Se estivesses na escola e faltasse a luz, o que achas que devias fazer?”
Aproveita a resposta para explicar que, na escola, devem seguir as orientações dos professores e funcionários e aguardar pelos procedimentos definidos pelo estabelecimento.
A partir dos 12 anos: mais autonomia, mas sem responsabilidades excessivas
Os adolescentes podem participar mais ativamente na preparação familiar.
Por exemplo, podem ajudar a verificar a bateria das lanternas, atualizar contactos, organizar uma mochila de emergência ou participar na definição do plano familiar.
Também faz sentido explicar onde encontrar informação oficial e porque não devem confiar automaticamente em tudo o que circula nas redes sociais durante uma emergência.
Mas há uma regra que se mantém em todas as idades: a responsabilidade pela segurança da família continua a ser dos adultos.
3. Ensina cinco coisas que podem fazer a diferença
Não precisas de ensinar dezenas de procedimentos de uma só vez. Começa pelo essencial e acrescenta informação gradualmente.
1. Saber a quem pedir ajuda
A criança deve identificar os adultos de confiança a quem pode recorrer em casa, na escola ou noutros locais que frequenta habitualmente.
Se ficar temporariamente separada dos pais, é importante que saiba procurar ajuda junto de um adulto responsável, em vez de tentar resolver a situação sozinha.
2. Conhecer um ponto de encontro familiar
Escolhe com a família um local de encontro adequado e seguro, que possa ser utilizado se houver necessidade de sair de casa.
Pode ser um espaço exterior próximo, desde que seja seguro para a situação em causa. Convém também definir uma alternativa.
Explica à criança que o ponto de encontro faz parte de um plano organizado e que deve seguir sempre as indicações dos adultos responsáveis e das autoridades.
Se ainda não tens este plano definido, consulta o nosso guia sobre como criar um plano de emergência familiar em menos de 30 minutos.
3. Saber os contactos importantes
Consoante a idade, ajuda a criança a aprender o seu nome completo, a morada e um ou dois contactos familiares.
Também podes preparar um cartão com os números mais importantes, guardado num local apropriado.
Em Portugal, o 112 é o número europeu de emergência. Explica às crianças mais crescidas quando é adequado utilizá-lo e que nunca devem fazer chamadas de teste ou por brincadeira.
4. Saber onde está o essencial
Mostra onde se encontram alguns objetos úteis, como uma lanterna, água ou o kit de emergência.
Não é necessário que a criança tenha acesso autónomo a medicamentos, ferramentas ou outros materiais que exijam supervisão.
O objetivo é familiarizá-la com a organização da casa, e não atribuir-lhe tarefas perigosas.
5. Saber ouvir e seguir instruções
Em determinadas situações, a ação mais importante de uma criança será manter-se junto de um adulto responsável e seguir as orientações recebidas.
Esta mensagem deve ser simples e repetida com naturalidade: “Se acontecer alguma coisa inesperada, ouve os adultos que estão a cuidar de ti e pede ajuda se precisares.”
4. Três exercícios simples para fazer em família
Uma das formas mais práticas de ensinar é experimentar.
Não precisas de criar uma simulação realista nem de assustar os mais pequenos. Basta reservar alguns minutos para uma atividade curta e explicar antecipadamente o que vão fazer.
Exercício 1: onde está a lanterna?
Imagina que falta a eletricidade em casa.
Com as luzes acesas e num ambiente tranquilo, mostra à criança onde está a lanterna e como se liga. Depois, pede-lhe que identifique o local onde a guardam.
Podes até transformar a atividade num pequeno jogo de memória.
O que aprende? Que existe uma alternativa de iluminação e que os adultos sabem onde encontrar o material necessário.
Exercício 2: baixar, proteger e aguardar
Em Portugal, a iniciativa A Terra Treme, da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, promove três gestos de proteção em caso de sismo:
- Baixar: baixar-se para evitar quedas.
- Proteger: proteger a cabeça e o pescoço, por exemplo, abrigando-se debaixo de uma mesa resistente, quando adequado.
- Aguardar: manter a posição de proteção até o movimento terminar.
Podes demonstrar os movimentos em casa, num local adequado, sem gritos, alarmes ou dramatizações.
O que aprende? Um procedimento concreto de autoproteção que pode ser praticado e recordado.
Exercício 3: conhecer a saída de casa
Em conjunto, identifica as saídas habituais e explica qual é o plano familiar caso seja necessário abandonar a habitação.
Percorram o trajeto calmamente e conversem sobre onde se encontrariam, se fosse seguro fazê-lo.
Explica também que, numa emergência real, o percurso a utilizar depende da situação e das instruções das autoridades.
O que aprende? Que existe um plano e que não precisa de decidir sozinha o que fazer.
Importante: estes exercícios não substituem os procedimentos específicos de segurança para incêndios, sismos ou outras emergências. Numa situação real, devem prevalecer as orientações oficiais e as condições de segurança do momento.
5. Envolve as crianças na preparação do kit de emergência
Montar ou rever um kit de emergência pode ser uma atividade familiar simples e útil.
Mostra à criança alguns dos artigos que guardas e explica para que servem.
Por exemplo:
- Lanterna: permite ver melhor quando não há iluminação elétrica.
- Água: ajuda a garantir acesso a água para beber.
- Alimentos: permitem ter alguma alimentação disponível caso a rotina seja interrompida.
- Roupa extra: pode ser útil se for necessário passar algum tempo fora de casa.
- Contactos escritos: permitem consultar números importantes mesmo sem telemóvel.
Se há crianças pequenas, podes acrescentar artigos adaptados às suas necessidades, como fraldas, toalhitas, alimentação específica, uma muda de roupa ou um pequeno objeto de conforto.
Um peluche, um livro pequeno ou outro objeto familiar pode ajudar a proporcionar alguma tranquilidade durante uma situação inesperada.
Naturalmente, tudo deve ser escolhido tendo em conta a idade e a segurança da criança. Medicamentos, artigos de primeiros socorros e outros equipamentos que exijam cuidados devem permanecer sob responsabilidade dos adultos.
Se estiveres a organizar uma mochila para uma eventual saída de casa, podes apoiar-te na nossa checklist de evacuação de emergência e acrescentar os artigos específicos da tua família.
6. O que deves evitar quando falas de emergências com crianças?
Tão importante como o que ensinas é a forma como o fazes.
- Não uses o medo como motivação. Frases como “se não aprenderes isto, pode acontecer-te alguma coisa muito má” podem criar ansiedade desnecessária.
- Não mostres imagens perturbadoras para explicar os riscos. Para ensinar comportamentos de segurança, bastam exemplos simples e adequados à idade.
- Não transmitas responsabilidades de adulto. Uma criança pode ajudar a preparar, mas não deve sentir que a segurança da família depende dela.
- Não faças simulacros surpresa para testar a reação. É preferível explicar previamente o exercício e praticar num ambiente calmo.
- Não prometas que nunca acontecerá nada. É melhor explicar que existem riscos e que a família está a aprender a lidar com eles.
7. E se a criança ficar assustada?
Mesmo com uma abordagem cuidadosa, algumas crianças podem sentir medo ou fazer perguntas difíceis.
Se isso acontecer, não precisas de insistir na atividade.
Ouve o que a criança está a dizer, reconhece os seus sentimentos e tenta perceber o que a preocupa.
Por exemplo, se perguntar “E se a nossa casa ficar destruída?”, podes responder:
“Percebo que isso te preocupe. É uma coisa assustadora de imaginar. É por isso que os adultos aprendem o que fazer e preparam algumas coisas importantes. Nós vamos cuidar de ti e seguir as indicações das pessoas que nos ajudam.”
Se não souberes responder a alguma pergunta, podes dizê-lo e procurar informação fidedigna em conjunto, quando adequado.
A UNICEF recomenda ouvir as preocupações das crianças, evitar desvalorizar as emoções e procurar manter rotinas e momentos de proximidade durante situações difíceis.
Se a criança demonstrar ansiedade intensa ou persistente, alterações importantes no sono ou dificuldades que afetem o seu dia a dia, pode ser útil procurar aconselhamento junto de um profissional de saúde.
8. Checklist: começa hoje a preparar a tua família
Não tens de fazer tudo num único dia. Podes começar com estas seis tarefas simples:
Checklist de preparação familiar
- ☐ Explicar à criança o que é uma emergência, com palavras simples.
- ☐ Identificar os adultos de confiança a quem pode pedir ajuda.
- ☐ Rever os contactos importantes da família.
- ☐ Mostrar onde estão as lanternas e o kit de emergência.
- ☐ Definir um ponto de encontro e rever o plano familiar.
- ☐ Fazer um pequeno exercício em conjunto.
Depois, volta a conversar sobre o assunto de vez em quando, especialmente se houver alterações na rotina, na escola ou na composição da família.
Mais importante do que fazer um único exercício é manter a preparação como algo natural.
Preparar crianças também é uma forma de cuidar delas
Não precisas de transformar a tua casa num espaço de treino ou de falar constantemente sobre situações de emergência.
Na maioria dos casos, bastam pequenas conversas, um plano simples e alguns hábitos que a família possa praticar ocasionalmente.
Quando uma criança sabe a quem pedir ajuda, conhece algumas regras de segurança e percebe que os adultos estão preparados para a orientar, ganha ferramentas úteis para lidar com o inesperado.
Começa com uma conversa, mostra onde está a lanterna e envolve a família num pequeno exercício. São passos simples que podem fazer parte de uma preparação tranquila e realista.
E se ainda estás a organizar os artigos essenciais para casa, podes descobrir qual o kit de emergência mais adequado à tua família.
Um kit organizado pode facilitar a preparação, mas deve ser sempre complementado com um plano familiar e adaptado às necessidades de cada pessoa.
Fontes e recursos úteis
Este guia foi preparado com base em recomendações sobre preparação familiar, segurança e comunicação com crianças. Para aprofundares o tema, consulta: